segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ERA UMA VEZ...


Eu sempre acreditei e continuo acreditando que a melhor época para se viver é a atual, porque tenho a impressão de que quando vivemos de passado nos acovardamos diante do presente, sem falar que é um grande desperdício de tempo. Mas inevitavelmente há momentos em que sou bombardeada por pequenos filmes rodados em super 8 que ‘deslizam’ na minha cabeça.
A minha vida é marcada de cheiros, cores, sons, pessoas, enfim, um conjunto de tantas coisas... Mas também marcada por uma nostálgica sensação de que já vivemos em uma época onde o sentimento natural de satisfação pela vida e pelas coisas, prevalecia.
Lembro-me que morávamos em casas maiores ou mais espaçosas, onde o verde tinha mais regalia em relação ao cimento e a lajota. Os móveis e os eletrodomésticos, assim como os relacionamentos, as amizades e os empregos, eram feitos para durar.
Cada casa tinha uma árvore que exalava um cheiro peculiar, cheiro esse que misturava-se aos dos bolos ao entardecer.
O leite era entregue em garrafas de vidro na porta da sua casa, junto com o pão e acredite, ninguém os roubava ou te sacaneava.
Cada família tinha seu animal de estimação, amado, mas sem ser tratado como filho postiço com roupas de grife.
Os carros eram mais quadrados, menos equipados e não eram de plástico.
O futebol era arte, mais camisa e menos contrato.
Os mercados ficavam abertos até às 7 horas da noite de um sábado, as compras eram levadas em sacolas de papel e ninguém deixava de suprir as suas necessidades.
Não tínhamos telefone porque isso era artigo de luxo e muito menos computador e inacreditavelmente, ninguém deixava de se encontrar, de sair, de namorar... Ninguém se esquecia tanto dos seus compromissos. Passávamos mais tempo juntos nas calçadas conversando e os abraços eram mais habituais, porque ninguém tinha tanto medo de se tocar.
Nos olhávamos mais.
Monteiro Lobato não era racista, Nelson Rodrigues não era pedófilo, Hitchcock não era psicopata e ao invés de Luciano Huck, tínhamos Chacrinha.
Os fumantes eram tratados como pessoas normais.
E por falar nisso, éramos menos sarados, turbinados, menos plásticos e podíamos nos dar ao luxo de viver como pessoas reais.
Nós mulheres éramos tiradas para dançar nos bailinhos improvisados do bairro, afinal ninguém tinha tanta vergonha em se divertir, muito menos em dançar coladinho.
Éramos pedidas em namoro e pedíamos um tempo para pensar...E os homens não desistiam de você.
Pelo menos nos livramos das ombreiras, das calças saint tropez, do ultimo governante de resquício militar (João Figueiredo) e do estigma e titulo; “somos do terceiro mundo”.
Matávamos menos, tolerávamos mais.
Criança roubava... Goiaba.
Ter caráter não era diferencial e a palavra tinha mais poder que contrato e promissória.
Tínhamos menos liberdade de imprensa, de expressão, de opção e para assumirmos nossas diferenças e talvez por isso, tínhamos menos conformismo.
O politicamente correto nunca foi a nossa bandeira.
A vida não era mais fácil, nunca foi e tudo isso não faz tanto tempo assim. Mas a vida anda passando tão rápido...
Tempo era algo que sempre tivemos, mas hoje parece que dá status viver ocupado.
E alguém propagou nesses últimos anos que devemos viver intensamente todos os minutos de nossa vida. Um alguém provavelmente muito inconsequente para propagar tamanha insanidade.
Como não tínhamos essa necessidade insana, todo minuto era muito bem vindo para se viver como se podia. E como exigíamos menos da vida, ela nos devolvia... Devolvia-nos em dias menos tribulados, mais vividos.
Se a vida era mais fácil? Nunca foi...



That´s all folks.

3 comentários:

  1. alo RENATA

    VAMOS todos juntos
    APRENDER
    a viver MOMENTOS
    assim não
    haverá tempo
    para CHATICES
    e nossos ANJOS DA GUARDA
    podem "tirar uma folga"

    bjs
    ricardo GAROPABA

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  2. Lendo seu texto, lembrei dos bailinhos, da ingenuidade e de "You've Got A Friend" de James Taylor, música sempre pedida por mim para poder dançar coladinho.

    Era tão bom...

    Beijos!

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  3. Que vontade de receber uma carta manuscrito. Lembro-me de ler e sentir todas as emoções contidas nas palavras e que faziam nossa imaginação e criatividade flutuarem. Tudo era mais natural, simples assim. Que saudades!!!

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